No final de maio a Intel comprou, por US$ 884 milhões, a Wind River Systems, uma empresa especializada em desenvolvimento de sistemas embarcados baseados em Linux. E o que isso tem a ver com o mercado de PCs atual?
Bem, a maioria provavelmente nunca ouviu falar de Robert X. Cringely, ou Bob Cringely, como alguns o conhecem. O Bob é um dos mais antigos jornalistas de informática, começou a escrever em 1979 a respeito dessas máquinas maravilhosas, e entre outras (muitas) coisas, apresentou os documentários “Triumph of the Nerds” e “Nerds 2.0.1″, respectivamente sobre a história da microinformática nos EUA, e sobre o surgimento e crescimento da Internet (ambos não estão disponíveis no Brasil por meios legais).
Pois então, o Bob levantou uma idéia que até então poucos tinham pensado. No seu blog pessoal, ele comentou algumas coisas que me fizeram pensar a respeito da Vida, o Universo e Tudo O Mais. Abaixo vai um (muito) do que ele escreveu, acrescido por mim.
Hoje em dia, o que está dando dinheiro em termos de microinformática são os netbooks, e quase todos são movidos por processadores Intel (na sua maioria, Intel Atom). Só que, por causa do preço baixo, o lucro por unidade vendida é menor para todos. Ganha-se vendendo em maior quantidade. Mas o mais incômodo é que o lucro da Intel, que fornece o conjunto (processador Atom + rede sem-fio + chipset) é sensivelmente menor do que o lucro da Microsoft embarcando o velho Windows XP nesses micrinhos. Pior, o lucro da Microsoft com o Windows que vem pré-instalado é razoavelmente maior do que o lucro de qualquer fabricante de microprocessadores, incluído a Intel. Isso, se expandirmos para além dos netbooks.
Há algum tempo a Intel anunciou na sua estratégia (isso tem de 3 a 4 anos) que ela seria agora uma empresa de plataformas, ao invés de ser uma empresa de microprocessadores. E para ser uma empresa de plataformas, é necessário silício e software de baixo nível para unir essas partes. Um exemplo bom é a tecnologia Centrino, que consiste num processador de baixo consumo, um chip wireless e software para gerenciamento das conexões de rede. A Intel faz mais dinheiro com a tecnologia Centrino do que vendendo os itens em separado. Logo, software une o hardware e aumenta os lucros. E ele é cada vez é mais necessário por parte da Intel. Soluções como o Intel Active Management Technology (AMT), por exemplo, dependem MUITO de software.
O que fazer então? Diminuir ainda mais o preço do computador, cortando fora o lucro do sistema operacional. Substitui-se por um que não tenha que pagar nada por ele. Sim, investimento em Linux. E a Microsoft, nessa jogada? Ela que se exploda.
É curiosa essa atitude da Intel agora, pois ela sempre foi lacaia da Microsoft. Quem tem um pouco mais de janela, lembra-se da “imprensa especializada” falando em soluções Wintel (Windows + Intel), e do absurdo proposto pela primeira, de adequar o microprocessador ao sistema operacional, e não o contrário. A Intel quer vender microprocessador, não importa se será usado como calço de porta ou em projetos de supercomputação. E ela não iria querer ser uma mera refém da empresa de Redmond. Afinal, não se faz acordos com uma cobra venenosa.
O caminho passa por trabalhar em cima do Moblin, um Linux patrocinado pela Intel para dispositivos portáteis, como os MIDs (Mobile Internet Devices, como os N770/N800/N810 da Nokia). Mas é facilmente estendido para netbooks e desktops. Ou seja, um concorrente para o Windows 7, que sai em 22 de outubro (segundo a Microsoft).
Os netbooks não irão cair muito mais de preço se o software que vier embarcado for pago (e caro), como é o Windows XP. Uma solução de software livre traz duas coisas que interessam à Intel:
- Ausência de royalties a serem pagos, o que baixa o custo do produto, ao mesmo tempo que aumenta o lucro do fabricante de processadores.
- Fomento de uma comunidade em torno do produto, o que traz software para o sistema, e em última análise, possíveis compradores.
A solução para a Intel é embarcar o Moblin em tudo o que puder e abrir concorrência com o Windows… E com o Android. Afinal, lembrem que o Android já foi demonstrado rodando em netbooks, inclusive alguns smartbooks rodando o processador ARM… Que não é Intel. Alguns poderiam argumentar que a Intel poderia investir no Android simplesmente, e colocar os seus mais de 5000 engenheiros de software fazendo algo de mais útil. Mas para ser uma empresa de plataformas, a Intel não pode se colocar na mão de outra, como o Google. É muito arriscado.
A compra da Wind River mostra que a Intel quer expandir o seu alcance a fronteiras nunca dantes navegadas - por ela: Sistemas embarcados. Afinal, a Wind River é especialista nisso, e dentro em breve poderemos ver o Moblin portado para várias plataformas não-PC (e não-Intel), o que traz para a empresa de Santa Clara o conhecimento que falta a ela: software em baixo nível. Mostra também que o Moblin é estratégico para a Intel, assim como o Linux é em geral: Mesmo que não use-o, soluções com Linux são mais baratas e mais lucrativas para os fabricantes.
Se der certo, teremos o Moblin em diversas versões nos próximos 2 anos, para diferentes plataformas. Se der muito certo, teremos uma guerra entre Intel e Microsoft em desktops e servidores também. Só o tempo dirá se a Intel pode caminhar no mercado sem ser lacaia de ninguém. O CEO, Paulo Otellini, acha. E vocês? O que vocês acham?
Fonte: I, Cringely.

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